Vampirismo de Byron a Tarantino


Vampirismo - De Byron a Tarantino

Por vários autores

 

Sangue, sexo e palavras

Por Luiz Costa

 

            Sua fama é a do amante dominador, perigoso e sensual: Olhos que rasgam vestidos, dentes que deslizam pelo pescoço.

            Lamia, Drácula, Nosferatu, Lestat: ressuscitado pelas gerações, o vampiro apavora, adere aos novos tempos e fascina. Para muitos é demônio parasita. Para outros, o que conquistou imortalidade após a morte. É o ícone das chagas sem cura, da peste bubônica à Aids, e metáfora dos que drenam energia vital de seus parceiros. Quando todos o têm como morto, o vampirismo renasce das cinzas e testa seu poder sobre o imaginário popular.

Uma nova onda sanguessuga paira no ar. A Rocco acaba de lançar Lasher, de Anne Rice, e providencia a versão brasileira de Memnoch, The Devil. Quentin Tarantino revisita o vampirismo em uma de cinco recentes produções hollywoodianas com o tema. Oráculo, romance de Bram Stoker que em 97 comemora centenário, encabeçou a lista das melhores obras de entretenimento do século, divulgada em fevereiro pela Biblioteca de Nova York e o ator Christopher Lee acaba de lançar uma video-biografia. E Tod Browning, diretor de Oráculo (1931), com Bela Lugosi, é o grande homenageado do Festival de Cinema de San Sebastian, Espanha, entre 19 e 28 de setembro.

No final de 95, duas das pesquisas mais importantes já realizadas sobre o vampirismo foram editadas no Brasil. A Makron trouxe O Livro dos Vampiros – A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, de Gordon Melton, um calhamaço de mil páginas em verbetes. E a Mercúrio lançou o clássico de Raymond McNally e Radu Florescu, Em Busca de Oráculo e Outros Vampiros, de 72, com descobertas históricas que influenciaram a ficção contemporânea, de Rice ao Francis Ford Coppola de Oráculo, de Bram Stocker (1992). Em Busca revê fontes de Stocker e a vida de Vlad Tepes, o Empalador (1430/77), príncipe romeno da Wallachia, que perpassava inimigos com estacas e bebia seu sangue.

Lendas datam da antiguidade grega e casos reais como o de Elizabeth Bathory (1560/ 1614), que mergulhava em sangue para manter a juventude, reforçaram o mito. Mas foi o reino da ficção que se apropriou do vampiro étnico das lendas e o aproximou do imaginário urbano.

A aventura literária do vampiro data do romantismo, cenário da individualidade burguesa e da exacerbação das emoções. Há quem leia no poema Die Braut von Korinth (1797), de Goethe, ou em Christabel (1798), de Colerigde, alusões a vampiros. Mas foi John Polidori (1795/ 1821), médico de Lord Byron, o marco da literatura vampiresca moderna. Polidori estava no grupo que em 1816 se hospedou na Villa Diodati, em Genebra, a convite de Byron, que desafiou todos a criarem histórias de fantasmas durante uma tempestade. Dali sairia Frankenstein, de Mary Shelley. A história de Byron falava de dois amigos que vão para a Grécia, onde um deles morre.Ao moribundo, o amigo jurou não revelar sua morte a ninguém. De volta à Inglaterra, ele o reencontra vivo.

 

 

Em 72, a descoberta de Vlad Tepes, o Drácula histórico, influenciou a 

ficção posterior, como Drácula, de Bram Stoker, de Coppola

 

 

Trote literário

 

Byron desistiu da idéia. Mas Polidori a usou no conto The Vampyre, em que Byron serviu de modelo para Lord Ruthven, um nobre que bebia sangue de mulheres. O conto saiu no New Monthly Magazine de abril de 1819, com o nome de Byron. Goethe, no ridículo, declarou que era a melhor obra de Byron.

Em 1897 Bram Stoker retirou o mofo dos castelos medievais do vampirismo ao levar Drácula para sua Inglaterra contemporânea. É o vampiro definitivo: que vira morcego, não aparece em espelhos, tem caixão com solo nativo e não vai a uma casa sem convite.

Poucos impactos literários ocorreram desde então. O primeiro, com I am legend (1954), de Richard Matheson, que narra a história do único ser humano em um mundo de vampiros. O outro, com Entrevista com o Vampiro (76), de Anne Rice. No Brasil, Dalton Trevisan se consagrou com o metafórico O Vampiro de Curitiba, em que o protagonista Nelsinho persegue mulheres à noite e transmite aos outros sua obsessão por sexo.

O vampiro literário se atualizou. No século 19, os personagens agem sob forte apelo moral, o mal-estar cristão diante das trevas, a revolta do homem corneado por vampiros imaginários.

Na era da ficção que gerou Matheson, Rice e Trevisan, os vampiros ganharam ambigüidade, são andróginos ou bissexuais cu incorporam opostos. O iluminado aceita a escuridão, o prazer se alimenta da dor; a imortalidade é poder e tédio. Eles não sofrem mais com objetos sacros e só hesitam em matar por aventura mórbida ou enfado. Observador objetivo da degradação humana, o vampiro é agora o protagonista de um estilo de vida alternativo em uma cultura que exige, cada vez mais, conformidade.

 

“Tu que, como uma apunhalada,

Entraste em meu coração triste...

De demônios, louca surgistes...

Se te livrássemos um dia,

Teu beijo ressuscitaria

O cadáver de teu vampiro!”

 

Trecho do poema Vampiro (As Flores do Mal, 1857), de Charles Baudelaire.

 

  

 

 

A Volta da Doce Vampira

Por Marcelo Bernardes

 

 

            Após criticar – e depois voltar atrás – sobre a escolha do astro Tom Cruise para interpretar Lestat no filme Entrevista com o Vampiro, a escritora Anne Rice volta à polêmica. Agora, com seu mais recente livro, Memnoch, the Devil (Memnoch, o diabo), onde é acusada pela crítica de ter mudado, para pior, sua receita de suspense. Mesmo com menos suspense e cenas sanguinárias, e alguns novos ingredientes, a receita de Anne Rice não desanda e o livro, lançado em julho pela editora Knopf (e em fase de tradução pela Rocco), logo foi para a lista dos mais vendidos.

Dessa vez, o vampiro Lestat está em Nova York, assustado com um homem que lhe segue em qualquer canto do mundo. Desconfia que não é um caçador de vampiros, mas de uma força mais aterrorizante. Lestat pede ajuda a David Talbot, um gentleman inglês que cuida de uma organização de atividades paranormais – a Talamasca – e figura que admira desde que (o primeiro encontro dos dois está em Entrevista com o vampiro) este não aceitou sua oferta de imortalidade.

Talbot (transformado em vampiro em The Tale of Body Thief quarto livro da série) apresentou Lestat à magia do carnaval e do candomblé carioca. Na última ida com Talbot ao Rio foi quando primeiro pressentiu que estava sendo seguido.

No encontro em Manhattan, Lestat revela a Talbot que também anda seguindo um traficante, Roger, cuja filha, Dora, é uma televangelista de Nova Orleans. O amigo acredita que a pessoa que segue Lestat pode ter alguma conexão com Roger e sugere que o vampiro o mate. Lestat corta o corpo do traficante em pedacinhos e o espalha pela cidade. Mas o pior está por vir.

O fantasma de Roger se materializa para Lestat e conta sua vida. Quando criança, o traficante conheceu o escritor místico Wynken de Wilde. Para comprar os livros do escritor, que supostamente o levariam a Deus, Roger vira traficante de drogas e assassino de aluguel. Quer passar esses ensinamentos divinos para a filha, que o despreza. Roger pede que Lestat ache esses livros e os entregue a Dora.

 

“Pirou de vez”

 

Apaixonado pela história do fantasma e ainda mais atraído pela figura de sua filha, Lestat resolve recuperar o livro e volta a New Orleans para encontrar Dora. No dia do encontro, o homem que o seguia se apresenta. Ele é Memnoch, o diabo, que atravessou séculos para fazer uma oferta a Lestat: que vá ao Céu e depois ao inferno, e enfim escolha um dos terrenos.

É por essa viagem à espiritual idade e à religiosidade que Anne Rice vem sendo criticada. Mmenoch leva Lestat ao Paraíso, onde vê o processo de crucificação de Cristo e até morde o pescoço de Deus. “Anne Rice pirou de vez”, escreveu um dos críticos da revista Entertainment Weekly

Não é a primeira vez que a escritora é chamada de louca. Em agosto, para divulgar Mmenoch em uma das livrarias Barnes & Noble, a maior de Nova York, Anne Rice assustou os fãs ao aparecer com saia longa preta, balangandãs, muitas pulseiras, anéis e até um turbante preto na cabeça, uma espécie de cruzamento de integrante de ala das baianas da Beija-Flor com deusa egípcia. Recentemente, foi procurar no Rio de janeiro (veja entrevista, na próxima página) o espírito da filha, Michele, morta aos cinco anos, vítima de leucemia.

Foi a morte de sua filha, em 72, que levou a escritora a se interessar pelo mundo dos vampiros. Em 76, Anne Rice lançava o best seller Entrevista com o vampiro. A personagem Cláudia, uma garota de cinco anos que Lestat transforma em vampira em 1794 para ser a filha dele com seu parceiro Louis, foi baseada na própria aparência de Michele. As coincidências não param por aí: as duas nasceram no mesmo dia, 21 de setembro, têm paixão por bonecas e vestidos rendados.

 

De Lestat a Lasher

 

A criação da personagem Cláudia funcionou como uma espécie de comunicação com a filha, via ficção. “Conscientemente, nunca pensei que estaria incluindo os meus sentimentos sobre a morte de minha filha num livro meu”, disse Rice. “Não foi proposital esta conexão, de transformar a beleza de Michele em modelo de Cláudia. Posso assegurar que a voz e o caráter da personagem não se parecem com o de minha filha”, comentou Rice.

Anne Rice nasceu Howard Allen O'Brien, em 1941. No primeiro ano do ginásio teve seu nome mudado para Anne. O sobrenome Rice vem de seu marido Stan, um poeta com quem se casou há mais de 20 anos e com quem, além de Michele, teve outro filho, Christopher. Anne, que morre de medo de escuro, começou sua carreira escrevendo livros pornográficos sob o pseudônimo de A. N. Roqquelaure. Com este nome lançou a trilogia da Bela – The Claiming of sleeping beauty, Beauty’s punishment e Beauty’ release. “Tenho muito orgulho de ter escrito livros eróticos”, revela Rice. “O erotismo é uma das coisas mais belas desse mundo”.

A escritora também lançou dois livros eróticos sob o pseudônimo de Anne Rampling. Um deles, Exit to eden, sobre dois policiais que investigam um caso numa clínica para recuperar ninfomaníacos, virou comédia de Hollywood com Dan Aykroyd, Rosie O’Donnell e Paul Mercurio (De Vem dançar comigo). Depois de Entrevista com o vampiro, continuou a saga de Lestat em mais quatro livros: Lestat, A Rainha dos condenados, The tale of the body thief e agora Mmenoch, the devil. Também lançou A Múmia, The Witching hour e mais recentemente Lasher e Taltos

Lasher, agora lançado no Brasil pela Rocco, foi um dos maiores sucessos editoriais nos EUA em 1994. Lasher, que significa espírito incubado, foi originalmente criado para ser um dos amigos do vampiro Armand no livro A Rainha dos condenados. A força do personagem levou Anne Rice a desistir da idéia e criar uma história só com o universo do personagem, A Hora das Bruxas,cuja continuação é Lasher.

Se em Lasher Anne Rice busca a espiritual idade através dos estudos da genética, em Mmenoch, the devil, ela resolveu expandi-los para o terreno do sobrenatural, com as dúvidas de Lestat sobre o bem e o mal.As citações, as definições e o léxico dos cinco livros de suas crônicas vampirescas foram ficando tão complicadas que acabaram resultando no lançamento de um apêndice escrito por Katherine Ramsland, com colaboração da própria Anne Rice.

Em The Vampire companion - The Ofticial guide to Anne Rice’s the vampire chronicles, da Editora Ballantine (1995), os fãs e estudiosos de Rice já podem dispor das utilíssimas definições de sua obra, organizadas em verbetes que vão desde o significado do abandono até o da palavra zumbi, passando por definições do Rio de Janeiro (“a cidade brasileira famosa por seu Carnaval e onde Lestat conheceu o candomblé”). Segundo o guia, Little Drink (pequeno drinque) é o termo que os vampiros usam para “descrever a habilidade de beber o sangue de um mortal sem tirar-lhe a vida”, “Se depender da minha vontade neste momento, o vampiro Lestat vai demorar para voltar”, diz Rice, “Mmenoch, the devil sugou todas as minhas energias e agora só quero me dedicar a uma história repleta de amor e muito sexo”.

 

 

Lestat de Lioncourt se tornou o modelo do vampiro 

contemporâneo, na literatura e no cinema

 

 

Os livros de Anne Rice no Brasil

 

Entrevista com o vampiro – Rocco

História do ladrão de corpos – Rocco

A múmia – Rocco

A rainha dos condenados – Rocco

Vampiro Lestat – Marco Zero

A hora das bruxas – Rocco

 

 

 

Entrevista com Anne Rice

Por Roberta Jansen

 

 

"Meu próximo livro vai ser ambientado no Brasil.

Me senti intimamente ligada ao país"

 

Os temas sobrenaturais nem sempre estiveram entre as preocupações de Anne Rice. Só passaram a povoar sua mente a partir de 72, quando sua filha Michele morreu, com leucemia. A passagem pelo Brasil no reveillon mostrou que o outro mundo lhe subiu à cabeça. Veio buscar o espírito da filha, que uma vidente disse estar em uma menina carioca que toca piano. Por isso, seu próximo livro será ambientado no Brasil.

Apesar disso, a escritora não se animou, em entrevista dada durante sua vinda ao Rio, a falar sobre o novo livro, nem sobre Lasher, a continuação de A Hora das Bruxas, que a Rocco acaba de lançar. Mas conversou sobre os assuntos que, segundo ela, ocupam sua mente nesse momento: a busca do espírito da filha, a religiosidade dos brasileiros e a preservação do mico leão dourado.

 

LIVROS & ARTES – Você veio ao Brasil em busca do espírito de sua filha. O que a faz acreditar que Michele teria reencarnado em uma menina carioca?

            ANNE RICE – Uma amiga íntima me disse que Michele teria reencarnado em uma menina brasileira que toca piano extremamente bem para sua idade. Houve outra coisa. O médico que a tratou passava o carnaval no Rio quando ela morreu. Não pude ignorar tamanha coincidência. Desde então. o sonho da minha vida sempre foi vir ao Brasil.

 

LIVROS & ARTES – Você encontrou a menina?

            ANNE RICE – Não. A pessoa que me deu a informação desapareceu há muito tempo e não tinha muitas pistas. Mas, embora seja a primeira vez que venho ao Brasil, me senti intimamente ligada ao país. Senti uma coisa muito forte. A sensação foi de estar em casa, ou, pelo menos, de já ter estado aqui antes.

 

LIVROS & ARTES – Você fica constrangida de falar desse assunto tão pessoal?

ANNE RICE – Não, de forma alguma. A busca da reencarnação de Michele é algo muito intenso, mas é bom estar perto do espírito da minha filha, esteja ele aqui ou não.

 

LIVROS & ARTES – E por onde andou em busca do espírito de Michele?

            ANNE RICE – Fui a diversas igrejas: no Outeiro da Glória, na Candelária, na Catedral, na Catedral Metropolitana e na Igreja do Carmo. Visitei também a Floresta da Tijuca.

 

LIVROS & ARTES – Houve alguma razão especial para visitar a Floresta da Tijuca?

            ANNE RICE – Sim. Li em uma revista do hotel um artigo sobre a extinção do mico leão dourado. Quero tomar parte desse problema de preservação, por isso quis conhecer seu habitat e fui à Floresta. Fiquei muito preocupada com a situação do mico. Quando voltar aos Estados Unidos, pretendo pedir ajuda a autoridades para criar uma área de preservação. Fiquei fascinada com a Floresta. Havia neblina por todos os lados, gostei muito. E veja, tem outra coisa. O sobrenome do vampiro Lestat (de Lioncourt) faz alusão a um leão. Como o mico leão dourado, Lestat também representa a imagem de um pequeno leão. Há um simbolismo muito forte na conexão dessas pequenas coisas.

 

LIVROS & ARTES – A sua vinda ao Brasil teve também como objetivo a pesquisa para um novo livro. Como será ele?

            ANNE RICE – Será uma história de fantasmas. O livro começa com a história de uma violonista americana que vem ao Rio fazer uma apresentação no Teatro Municipal. Mas não posso adiantar mais detalhes. Vim ao Brasil para pesquisar a religiosidade e o misticismo do povo.

 

LIVROS & ARTES – Você chegou a ir a algum terreiro de macumba?

ANNE RICE – Não fui porque me preveniram contra os programas direcionados a turistas. Queria ver um ritual autêntico, por isso não fui.

 

            LIVROS & ARTES – Mas você passou o reveillon no Rio, em um hotel na Avenida Atlântica. Viu os rituais de macumba que fazem na praia?

ANNE RICE – Sim, assisti da sacada do hotel à festa de reveillon na praia. Vi lá de cima a macumba que fazem na praia e achei maravilhoso. Foi um dos espetáculos mais bonitos que já vi em minha vida e gostaria de voltar todos os anos.

 

LIVROS & ARTES – Você conhece as lendas da população ribeirinha, como a do boto que se transforma em homem?

ANNE RICE – Sim, conheço essa lenda e sei que existem muitas. Tenho certeza que muitas coisas que tenho visto nessa viagem vão inspirar meus escritos futuros.

 

LIVROS & ARTES – Não gostaria de falar de seu livro Lasher, que acaba de ser lançado no Brasil?

LIVROS & ARTES – Como você percebe, minha mente está ocupada com outras coisas agora. No momento estou estudando a vida do mico leão e não tenho tempo para falar sobre isso. Me desculpe.

 

Os vampiros no cinema

Por Luiz Costa

 

O primeiro filme com vampiros completou 100 anos. Anterior ao livro de Bram Stocker, Le Manoir du diable (1896), curta de Georges Mélies, traz Mefistófeles acuado por um nobre depois de ter virado morcego.

O primeiro filme baseado em c Stoker foi o húngaro Drakula (1920), de Karoly Lajthay, dois anos antes de Nosferatu, uma sinfonia de horror, de Freidrich Mumau. Ele fez a metáfora da pestilência retomada por Werner Herzog, corno ode à morte anunciada, em Nosferatu, o vampiro da noite (79).

Apesar da versão de Carl Dreyer, Vampyr, o marco de 1931 foi o Oráculo com Bela Lugosi imortalizando o vampiro com capa e sotaque húngaro. Em 58, Christopher Lee estrelou O vampiro da noite, firmando outra marca: os caninos grandes.

No campo do escracho, Roman Polanski tocou A Dança dos vampiros (67) e até Andy Warhol fez um filme, Blood for Dracula (73), com Vittorio de Sica. Nele, Drácula está morrendo por falta de sangue virgem na Transilvânia. Vai à Itália, mas um jardineiro sempre chega às virgens antes dele. No Brasil, Ivan Cardoso e Zé do Caixão são os adeptos do vampirismo com auto-ironia.

Em 79, a descoberta do Drácula histórico gerou o lascivo Drácula, com Frank Langella. A sensualidade foi retomada em Fome de viver (83), com Catherine Deneuve, mas o filme dos anos 80 foi o divertido A Hora do espanto (85), de Tom Holland. Em 92, Coppola suga o Drácula histórico, a tradição literária e cinematográfica, em Dráculo, de Bram Stoker, um algo piegas monumento ao amor eterno.

 

 

 

Hollwood aposta no sangue

Por Marcelo Bernardes

 

            Depois de arrecadar US$ 100 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 200 milhões no mercado internacional em 1994, o filme Entrevista com o Vampiro, de Neil Jordan, abriu as portas para várias produções com o notívago chupador de sangue no papel principal.

Os vampiros da última temporada hollywoodiana jogaram em dois times: dos pianistas e dos deprimidos. A escalação teve raças, faixas etárias e posição social distintas. Mesmo assim, nenhum deles conseguiu fazer tanto dinheiro como a dobradinha formada por Tom Cruise e Brad Pitt.

 O grande lançamento do final do ano passado foi a comédia Vampire in Brooklin, com Eddie Murphy como o sanguessuga do bairro nova-iorquino. Embora com campanha publicitária maciça e a participação da musa negra Angela Basset (protagonista de Tina), o filme não foi bem na bilheteria.

Lançado no natal, Drácula: dead and loveing it (Drácula: morto e adorando), de Mel Brooks, traz Leslie Nielsen como protagonista. O astro decano de Corra que a polícia vem aí prepara seu vôo para seduzir uma beldade inglesa. Quando ele está a poucos metros do alvo, ela, com frio, resolve fechar a janela. A trombada é certa.

A atual temporada vamp de Hollywood conta com o relativo sucesso de dois cults alternativos: Nadja e The Addiction. Em Nadja, o cineasta Michael Almereyda, em produção de David Lynch, mescla fotografia em preto e branco granulada com a sua câmera exclusiva Pixelvision, que produz imagens nas ruas do Village, em Nova York, enquanto seu vampiro vai atacando suas vítimas. Embora seja um drama, Peter Fonda (o astro de Sem destino, Renascendo das trevas) garante boas risadas.

 

O vampiro viciado

 

Depressiva, densa e acadêmica é a vampira de Lili Taylor no filme do infante terrível Abel Ferrara, The Addidion (a viciada). Lili estuda filosofia na New York University e à noite procura suas vítimas, também no Bairro do Village, que já virou sinônimo de vizinhança vampírica da cidade. Seu conflito é que não consegue conciliar seu senso aguçado de moralidade com o desejo desenfreado pelo sangue humano.

O novo filme de Robert Rodriguez, de A Balada do pistoleiro, traz dois ídolos da nova geração juntos: o cineasta Quentin Tarantino e o ator da série Plantão médico, George Clooney. Os dois encontram um bando de vampiros em pleno saloon do Oeste americano em From dusk till dawn (do entardecer à madrugada). No trailler do filme, que faturou US$ 22 milhões de bilheteria até 16 de fevereiro, após três semanas nos EUA, o letreiro anuncia: “Vampiros sim. Entrevista e conversa fiada não”.

 

“Sem cessar ao meu lado

O demônio arde em vão...

Enchendo-o de um desejo

Eterno e criminoso”

Trecho do livro As Flores do Mal, Charles Baudelaire

 

 

 

 

 

Entrevista com Christopher Lee

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in-bottom: 0" align="center">Por Ivan Cardoso

 

 

Ator mais identificado a Drácula desde Bela Lugosi, Christopher Lee, 74 anos, deu ao personagem a selvageria e o charme que o distinguiu da personificação suave de aristocrata de Lugosi, Desde Horror de Drácula, de 58, fez mais de 130 longas, 10 dos quais como o vampiro de Bram Stoker.

Em 86, no Festival de Terror de Stiges, na Espanha, o cineasta Ivan Cardoso o entrevistou, Desde Nosferato no Brasil (71), comédia em super 8 com o drácula Torquato Neto passando férias no Brasil e vampirizando Scarlet Moon e outras nativas, o tema se tornou obsessão para o diretor de As sete  vampiros (86).

Lee, que fala oito línguas (inclusive o português) e usa um anel de Drácula, acaba de lançar em Londres a videobiografia The many face of Christopher Lee.

Em 96, Ivan vai concluir o documentário À Meia Noite com Glauber, na Zona Proibida, e está engatilhando, com Roger Corman, o filme A Filha de Drácula.

   

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  Christopher Lee em "Horror of Dracula" de 1958

 

IVAN CARDOSO – Você sente saudades do conde Drácula?

CHRISTOPHER LEE – Gostaria muito de voltar ao papel, embora já o tenha recusado várias vezes. O público me identifica com o personagem e tenho medo de passar a vida só fazendo esses papéis, como aconteceu ao infeliz Bela Lugosi. Mas gostaria de voltar a fazer Drácula, com a condição de que a produção e o argumento me interessem. O papel foi uma das maiores oportunidades da minha vida, um dos mais célebres e fantásticos personagens... Nenhum ator poderia pedir mais.

 

IVAN – Como você se especializou no gênero do terror?

LEEUma tarde, quando estava no escritório do meu agente em Londres, ele me disse que iam rodar um filme de Frankenstein na Inglaterra e que a Hammer tinha comprado os direitos. Eu não sabia nada sobre o gênero. Eu me interessei, primeiro porque precisava trabalhar. Propuseram-me o papel do monstro. Por que não? Descobri logo que era um personagem apaixonante, quase um papel de mímica, e tinha a altura do personagem. Foi uma experiência nova para mim. Só depois de The curse of Frankenstein (1957) fui convidado para ser Drácula nas telas.

 

IVAN Como você compôs Drácula?

LEE – A minha idéia de interpretação do personagem se baseou no romance que reli inúmeras vezes. A própria neta de Bram Stoker foi me ver representar e me assegurou que estava muito bem. Claro que havia diferenças entre o argumento do filme e o romance, mas tentei sempre pôr em evidência a solidão do mal e mostrar que, por mais terríveis que fossem as ações do Conde Drácula, eram impulsionadas por uma força oculta que não podia controlar. Foi sua grande tristeza que tentei impregnar a minha interpretação.

 

IVAN Drácula é um personagem muito difícil de se interpretar?

LEE – A sua interpretação compreende um problema de ordem sexual. O sangue, símbolo da virilidade, e a atração sexual que a ele se liga sempre estiveram vinculados ao tema do vampirismo. Tentei sugerir isso sem destruir o mito. Aliás, não devemos esquecer que Drácula era um gentleman, um nobre e, na sua primeira vida, um grande soldado e condutor de homens. Claro que era impossível, num só filme, mostrar tudo isso, mas é sempre possível sugerir, pela interpretação, fatos do passado, sem os mostrar...

 

IVAN – Por que Drácula é o mais popular personagem de terror?

LEEEle é romântico, muito erótico, um grande herói, forte e irresistível para as mulheres, poderoso com os homens e imortal, Talvez sejam estas as razões, eu não sei... É um dos livros mais famosos e lidos no mundo, depois da Bíblia. É o lado negro, dark side, satânico e desconhecido, por isso mesmo muito interessante.

 

IVAN Você já sonhou com Drácula?

LEENunca.

 

IVAN – Mas acredita no sobrenatural?

LEEEm algumas coisas. À noite, em Copacabana, eu via a macumba e, certa vez, participei de uma cerimônia. A coisa é muito profunda e às vezes até perigosa. A macumba é metade cristandade e metade velhas superstições. No mundo inteiro você vai verificar que as pessoas têm crenças fortíssimas. Acreditam em diabos, deuses e deusas, como na Índia, ou no vodu, como no Haiti.

 

IVAN Qual dos filmes de Drácula, que você fez, mais lhe agrada?

LEE – O primeiro. Horror de Drácula, de Terence Fisher.

 

IVAN – Na Hammer você fez 10 fitas de Drácula com Fisher, Freddie Francis e Roy Ward Baker. Mudava sua interpretação a cada filme?

LEEOs três diretores são bastante diferentes. Fisher era montador, Francis era um dos maiores cameraman e Roy, não estou bem certo se era montador ou roteirista. Tudo dependeu do que eles quiseram com o personagem. Cada um o viu de uma maneira diferente. Mas interpretei o papel mantendo as características do livro: heróico, romântico, erótico, inteligente e triste. Aquele que quer viver para sempre, que ninguém consegue controlar.

 

 

Publicado originalmente em Livros & Artes

Março/abril - 96 (pgs. 22-29)

 

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