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Por vários autores
Sangue, sexo e palavras Por
Luiz Costa
Sua fama é a do amante dominador, perigoso e sensual: Olhos que
rasgam vestidos, dentes que deslizam pelo pescoço.
Lamia, Drácula, Nosferatu, Lestat: ressuscitado pelas gerações,
o vampiro apavora, adere aos novos tempos e fascina. Para muitos é demônio
parasita. Para outros, o que conquistou imortalidade após a morte. É o
ícone das chagas sem cura, da peste bubônica à Aids, e metáfora dos
que drenam energia vital de seus parceiros. Quando todos o têm como
morto, o vampirismo renasce das cinzas e testa seu poder sobre o imaginário
popular. Uma
nova onda sanguessuga paira no ar. A Rocco acaba de lançar Lasher, de
Anne Rice, e providencia a versão brasileira de Memnoch, The Devil. Quentin
Tarantino revisita o vampirismo em uma de cinco recentes produções
hollywoodianas com o tema. Oráculo, romance de Bram Stoker que
em 97 comemora centenário, encabeçou a lista das melhores obras de
entretenimento do século, divulgada em fevereiro pela Biblioteca de
Nova York e o ator Christopher Lee acaba de lançar uma video-biografia.
E Tod Browning, diretor de Oráculo (1931), com Bela Lugosi, é o
grande homenageado do Festival de Cinema de San Sebastian, Espanha,
entre 19 e 28 de setembro. No
final de 95, duas das pesquisas mais importantes já realizadas sobre o
vampirismo foram editadas no Brasil. A Makron trouxe O Livro dos Vampiros
– A Enciclopédia dos Mortos-Vivos, de Gordon Melton, um
calhamaço de mil páginas em verbetes. E a Mercúrio lançou o clássico
de Raymond McNally e Radu Florescu, Em Busca de Oráculo e
Outros Vampiros, de 72, com descobertas históricas que
influenciaram a ficção contemporânea, de Rice ao Francis Ford Coppola
de Oráculo, de Bram Stocker (1992). Em Busca revê
fontes de Stocker e a vida de Vlad Tepes, o Empalador (1430/77), príncipe
romeno da Wallachia, que perpassava inimigos com estacas e bebia seu
sangue. Lendas
datam da antiguidade grega e casos reais como o de Elizabeth Bathory
(1560/ 1614), que mergulhava em sangue para manter a juventude, reforçaram
o mito. Mas foi o reino da ficção que se apropriou do vampiro étnico
das lendas e o aproximou do imaginário urbano. A
aventura literária do vampiro data do romantismo, cenário da
individualidade burguesa e da exacerbação das emoções. Há quem leia
no poema Die Braut von
Korinth (1797),
de Goethe, ou em Christabel (1798), de Colerigde, alusões a
vampiros. Mas foi John Polidori (1795/ 1821), médico de Lord Byron, o
marco da literatura vampiresca moderna. Polidori estava no grupo que em
1816 se hospedou na Villa Diodati, em Genebra, a convite de Byron, que
desafiou todos a criarem histórias de fantasmas durante uma tempestade.
Dali
sairia Frankenstein, de Mary Shelley. A
história de Byron falava de dois amigos que vão para a Grécia, onde
um deles morre.Ao moribundo, o amigo jurou não revelar sua morte a
ninguém. De volta à Inglaterra, ele o reencontra vivo.
Em 72, a descoberta de Vlad Tepes, o Drácula histórico, influenciou a ficção
posterior, como Drácula, de Bram Stoker, de Coppola Trote literário Byron
desistiu da idéia. Mas Polidori a usou no conto The Vampyre, em
que Byron serviu de modelo para Lord Ruthven, um nobre que bebia sangue
de mulheres. O conto saiu no New Monthly Magazine de abril de
1819, com o nome de Byron. Goethe, no ridículo, declarou que era a
melhor obra de Byron. Em
1897 Bram Stoker retirou o mofo dos castelos medievais do vampirismo ao
levar Drácula para sua Inglaterra contemporânea. É o vampiro
definitivo: que vira morcego, não aparece em espelhos, tem caixão com
solo nativo e não vai a uma casa sem convite. Poucos
impactos literários ocorreram desde então. O primeiro, com I am
legend (1954), de Richard Matheson, que narra a história do único
ser humano em um mundo de vampiros. O outro, com Entrevista com o
Vampiro (76), de Anne Rice. No Brasil, Dalton Trevisan se
consagrou com o metafórico O Vampiro de Curitiba, em que o
protagonista Nelsinho persegue mulheres à noite e transmite aos outros
sua obsessão por sexo. O
vampiro literário se atualizou. No século 19, os personagens agem sob
forte apelo moral, o mal-estar cristão diante das trevas, a revolta do
homem corneado por vampiros imaginários. Na
era da ficção
que gerou Matheson, Rice e Trevisan, os vampiros ganharam ambigüidade,
são andróginos ou bissexuais cu
incorporam opostos.
O iluminado aceita a escuridão, o prazer se alimenta da dor; a
imortalidade é poder e tédio. Eles não sofrem mais com objetos sacros
e só hesitam em matar por aventura mórbida ou enfado. Observador
objetivo da degradação humana, o vampiro é agora o protagonista de um
estilo de vida alternativo em uma cultura que exige, cada vez mais,
conformidade. “Tu
que, como uma apunhalada, Entraste
em meu coração triste... De
demônios, louca surgistes... Se
te livrássemos um dia, Teu
beijo ressuscitaria O
cadáver de teu vampiro!” Trecho
do poema Vampiro (As Flores do Mal, 1857), de Charles
Baudelaire. A Volta da Doce Vampira Por
Marcelo Bernardes
Após criticar – e depois voltar atrás – sobre a escolha do
astro Tom Cruise para interpretar Lestat no filme Entrevista com o
Vampiro, a escritora Anne Rice volta à polêmica. Agora, com seu
mais recente livro, Memnoch, the Devil (Memnoch, o diabo), onde
é acusada pela crítica de ter mudado, para pior, sua receita de
suspense. Mesmo com menos suspense e cenas sanguinárias, e alguns novos
ingredientes, a receita de Anne Rice não desanda e o livro, lançado em
julho pela editora Knopf (e em fase de tradução pela Rocco), logo foi
para a lista dos mais vendidos. Dessa
vez, o vampiro Lestat está em Nova York, assustado com um homem que lhe
segue em qualquer canto do mundo. Desconfia que não é um caçador de
vampiros, mas de uma força mais aterrorizante. Lestat pede ajuda a
David Talbot, um gentleman inglês que cuida de uma organização de
atividades paranormais – a Talamasca – e figura que admira desde que
(o primeiro encontro dos dois está em Entrevista com o vampiro)
este não aceitou sua oferta de imortalidade. Talbot
(transformado em vampiro em The Tale of Body Thief quarto livro
da série) apresentou Lestat à magia do carnaval e do candomblé
carioca. Na última ida com Talbot ao Rio foi quando primeiro pressentiu
que estava sendo seguido. No
encontro em Manhattan, Lestat revela a Talbot que também anda seguindo
um traficante, Roger, cuja filha, Dora, é uma televangelista de Nova
Orleans. O amigo acredita que a pessoa que segue Lestat pode ter alguma
conexão com Roger e sugere que o vampiro o mate. Lestat corta o corpo
do traficante em pedacinhos e o espalha pela cidade. Mas o pior está
por vir. O
fantasma de Roger se materializa para Lestat e conta sua vida. Quando
criança, o traficante conheceu o escritor místico Wynken de Wilde.
Para comprar os livros do escritor, que supostamente o levariam a Deus,
Roger vira traficante de drogas e assassino de aluguel. Quer passar
esses ensinamentos divinos para a filha, que o despreza. Roger pede que
Lestat ache esses livros e os entregue a Dora. “Pirou
de vez”
Apaixonado
pela história do fantasma e ainda mais atraído pela figura de sua
filha, Lestat resolve recuperar o livro e volta a New Orleans para
encontrar Dora. No dia do encontro, o homem que o seguia se apresenta.
Ele é Memnoch, o diabo, que atravessou séculos para fazer uma oferta a
Lestat: que vá ao Céu e depois ao inferno, e enfim escolha um dos
terrenos. É
por essa viagem à espiritual idade e à religiosidade que Anne Rice vem
sendo criticada. Mmenoch leva Lestat ao Paraíso, onde vê o processo de
crucificação de Cristo e até morde o pescoço de Deus. “Anne Rice
pirou de vez”, escreveu um dos críticos da revista Entertainment
Weekly Não
é a primeira vez que a escritora é chamada de louca. Em agosto, para
divulgar Mmenoch em uma das livrarias Barnes & Noble, a maior
de Nova York, Anne Rice assustou os fãs ao aparecer com saia longa
preta, balangandãs, muitas pulseiras, anéis e até um turbante preto
na cabeça, uma espécie de cruzamento de integrante de ala das baianas
da Beija-Flor com deusa egípcia. Recentemente,
foi procurar no Rio de janeiro (veja entrevista, na próxima página) o
espírito da filha, Michele, morta aos cinco anos, vítima de leucemia. Foi
a morte de sua filha, em 72, que levou a escritora a se interessar pelo
mundo dos vampiros. Em 76, Anne Rice lançava o best seller Entrevista
com o vampiro. A personagem Cláudia, uma garota de cinco
anos que Lestat transforma em vampira em 1794 para ser a filha dele com
seu parceiro Louis, foi baseada na própria aparência de Michele. As
coincidências não param por aí: as duas nasceram no mesmo dia, 21 de
setembro, têm paixão por bonecas e vestidos rendados. De Lestat a Lasher A
criação da personagem Cláudia funcionou como uma espécie de comunicação
com a filha, via ficção. “Conscientemente, nunca pensei que estaria
incluindo os meus sentimentos sobre a morte de minha filha num livro
meu”, disse Rice. “Não foi proposital esta conexão, de transformar
a beleza de Michele em modelo de Cláudia. Posso assegurar que a voz
e o caráter da personagem não se parecem
com o de minha filha”, comentou Rice. Anne
Rice nasceu Howard Allen O'Brien, em 1941. No
primeiro ano do ginásio teve seu nome mudado para Anne. O sobrenome
Rice vem de seu marido Stan, um poeta com quem se casou há mais de 20
anos e com quem, além de Michele, teve outro filho, Christopher. Anne,
que morre de medo de escuro, começou sua carreira escrevendo livros
pornográficos sob o pseudônimo de A. N. Roqquelaure. Com
este nome lançou a trilogia da Bela – The Claiming of sleeping
beauty, Beauty’s punishment e Beauty’ release. “Tenho
muito orgulho de ter escrito livros eróticos”, revela Rice. “O
erotismo é uma das coisas mais belas desse mundo”. A
escritora também lançou dois livros eróticos sob o pseudônimo de
Anne Rampling. Um deles, Exit to eden, sobre dois
policiais que investigam um caso numa clínica para recuperar ninfomaníacos,
virou comédia de Hollywood com Dan Aykroyd, Rosie O’Donnell e Paul
Mercurio (De Vem dançar comigo). Depois de Entrevista com o
vampiro, continuou
a saga de Lestat em mais quatro livros: Lestat, A Rainha dos
condenados, The tale of the body thief e agora Mmenoch, the devil.
Também lançou A Múmia, The Witching hour e mais
recentemente Lasher e Taltos Lasher,
agora
lançado no Brasil pela Rocco, foi um dos maiores sucessos editoriais
nos EUA em 1994. Lasher, que significa espírito incubado, foi
originalmente criado para ser um dos amigos do vampiro Armand no livro A
Rainha dos condenados. A força do personagem levou Anne Rice a
desistir da idéia e criar uma história só com o universo do
personagem, A Hora das Bruxas,cuja
continuação é Lasher. Se
em Lasher Anne Rice busca a espiritual idade através dos estudos
da genética, em Mmenoch, the devil, ela resolveu expandi-los
para o terreno do sobrenatural, com as dúvidas de Lestat sobre o bem e
o mal.As citações, as definições e o léxico dos cinco livros de
suas crônicas vampirescas foram ficando tão complicadas que acabaram
resultando no lançamento de um apêndice escrito por Katherine Ramsland,
com colaboração da própria Anne Rice. Em
The Vampire companion - The Ofticial guide to Anne Rice’s
the vampire chronicles, da
Editora Ballantine (1995), os fãs e estudiosos de Rice já podem dispor
das utilíssimas definições de sua obra, organizadas em verbetes que vão
desde o significado do abandono até o da palavra zumbi, passando por
definições do Rio de Janeiro (“a cidade brasileira famosa por seu
Carnaval e onde Lestat conheceu o candomblé”). Segundo o guia, Little
Drink (pequeno drinque) é o termo que os vampiros usam para
“descrever a habilidade de beber o sangue de um mortal sem tirar-lhe a
vida”, “Se depender da minha vontade neste momento, o vampiro Lestat
vai demorar para voltar”, diz Rice, “Mmenoch, the devil sugou
todas as minhas energias e agora só quero me dedicar a uma história
repleta de amor e muito sexo”.
Lestat de Lioncourt se tornou o modelo do vampiro contemporâneo, na
literatura e no cinema
Entrevista com Anne Rice Por
Roberta Jansen "Meu
próximo livro vai ser ambientado no
Brasil. Me
senti intimamente ligada ao país" Os
temas sobrenaturais nem sempre estiveram entre as preocupações de Anne
Rice. Só passaram a povoar sua mente a partir de 72, quando sua filha
Michele morreu, com leucemia. A passagem pelo Brasil no reveillon
mostrou que o outro mundo lhe subiu à cabeça. Veio buscar o espírito
da filha, que uma vidente disse estar em uma menina carioca que toca
piano. Por isso, seu próximo livro será ambientado no Brasil. Apesar
disso, a escritora não se animou, em entrevista dada durante sua vinda
ao Rio, a falar sobre o novo livro, nem sobre Lasher, a continuação
de A Hora das Bruxas, que a Rocco acaba de lançar. Mas conversou
sobre os assuntos que, segundo ela, ocupam sua mente nesse momento: a
busca do espírito da filha, a religiosidade dos brasileiros e a
preservação do mico leão dourado. LIVROS
& ARTES – Você
veio ao Brasil em busca do espírito de sua filha. O que a faz acreditar
que Michele teria reencarnado em uma menina carioca?
ANNE
RICE – Uma
amiga íntima me disse que Michele teria reencarnado em uma menina
brasileira que toca piano extremamente bem para sua idade. Houve outra
coisa. O médico que a tratou passava o carnaval no Rio quando ela
morreu. Não pude ignorar tamanha coincidência. Desde então. o sonho
da minha vida sempre foi vir ao Brasil. LIVROS
& ARTES – Você
encontrou a menina?
ANNE
RICE – Não.
A pessoa que me deu a informação desapareceu há muito tempo e não
tinha muitas pistas. Mas, embora seja a primeira vez que venho ao
Brasil, me senti intimamente ligada ao país. Senti uma coisa muito
forte. A sensação foi de estar em casa, ou, pelo menos, de já ter
estado aqui antes. LIVROS
& ARTES – Você
fica constrangida de falar desse assunto tão pessoal? ANNE
RICE –
Não, de forma alguma. A busca da reencarnação de Michele é algo
muito intenso, mas é bom estar perto do espírito da minha filha,
esteja ele aqui ou não. LIVROS
& ARTES – E
por onde andou em busca do espírito de Michele?
ANNE
RICE – Fui
a diversas igrejas: no Outeiro da Glória, na Candelária, na Catedral,
na Catedral Metropolitana e na Igreja do Carmo. Visitei também a
Floresta da Tijuca. LIVROS
& ARTES – Houve
alguma razão especial para visitar a Floresta da Tijuca?
ANNE
RICE – Sim.
Li em
uma revista do hotel um artigo sobre a extinção do mico leão dourado.
Quero tomar parte desse problema de preservação, por isso quis
conhecer seu habitat e fui à Floresta. Fiquei muito preocupada com a
situação do mico. Quando voltar aos Estados Unidos, pretendo pedir
ajuda a autoridades para criar uma área de preservação. Fiquei
fascinada com a Floresta. Havia neblina por todos os lados, gostei
muito. E veja, tem outra coisa. O sobrenome do vampiro Lestat (de
Lioncourt) faz alusão a um leão. Como o
mico leão dourado, Lestat também representa a imagem de um pequeno leão.
Há um simbolismo muito forte na conexão dessas pequenas coisas. LIVROS
& ARTES – A
sua vinda ao Brasil teve também como objetivo a pesquisa para um novo
livro. Como será ele?
ANNE
RICE – Será
uma história de fantasmas. O livro começa com a história de uma
violonista americana que vem ao Rio fazer uma apresentação no Teatro
Municipal. Mas não posso adiantar mais detalhes. Vim ao Brasil para
pesquisar a religiosidade e o misticismo do povo. LIVROS
& ARTES – Você
chegou a ir a algum terreiro de macumba? ANNE
RICE – Não
fui porque me preveniram contra os programas direcionados a turistas.
Queria ver um ritual autêntico, por isso não fui.
LIVROS
& ARTES – Mas
você passou o reveillon no Rio, em um hotel na Avenida Atlântica. Viu
os rituais de macumba que fazem na praia? ANNE
RICE – Sim,
assisti da sacada do hotel à festa de reveillon na praia. Vi lá de
cima a macumba que fazem na praia e achei maravilhoso. Foi um dos espetáculos
mais bonitos que já vi em minha vida e gostaria de voltar todos os
anos. LIVROS
& ARTES – Você
conhece as lendas da população ribeirinha, como a do boto que se
transforma em homem? ANNE
RICE – Sim,
conheço essa lenda e sei que existem muitas. Tenho certeza que muitas
coisas que tenho visto nessa viagem vão inspirar meus escritos futuros. LIVROS
& ARTES – Não
gostaria de falar de seu livro Lasher, que acaba de ser lançado
no Brasil? LIVROS
& ARTES – Como
você percebe, minha mente está ocupada com outras coisas agora. No
momento estou estudando a vida do mico leão e não tenho tempo para
falar sobre isso. Me desculpe. Os vampiros no cinema Por
Luiz Costa O
primeiro filme com vampiros completou 100 anos. Anterior ao livro de
Bram Stocker, Le Manoir du diable (1896), curta de Georges
Mélies, traz Mefistófeles acuado por um nobre depois de ter virado
morcego. O
primeiro filme baseado em c Stoker foi o húngaro Drakula (1920),
de Karoly Lajthay, dois anos antes de Nosferatu, uma sinfonia de horror,
de Freidrich Mumau. Ele fez a metáfora da pestilência retomada por
Werner Herzog, corno ode à morte anunciada, em Nosferatu, o vampiro
da noite (79). Apesar
da versão de Carl Dreyer, Vampyr, o marco de 1931 foi o Oráculo
com Bela Lugosi imortalizando o vampiro com capa e sotaque húngaro.
Em 58, Christopher Lee estrelou O vampiro da noite, firmando
outra marca: os caninos grandes. No
campo do escracho, Roman Polanski tocou A Dança dos vampiros
(67) e até Andy Warhol fez um filme, Blood for Dracula (73), com
Vittorio de Sica. Nele, Drácula está morrendo por falta de sangue
virgem na Transilvânia. Vai à Itália, mas um jardineiro sempre chega
às virgens antes dele. No Brasil, Ivan Cardoso e Zé do Caixão são os
adeptos do vampirismo com auto-ironia. Em
79, a descoberta do Drácula histórico gerou o lascivo Drácula, com
Frank Langella. A sensualidade foi retomada em Fome de viver (83),
com Catherine Deneuve, mas o filme dos anos 80 foi o divertido A Hora
do espanto (85), de Tom Holland. Em 92, Coppola suga o Drácula
histórico, a tradição literária e cinematográfica, em Dráculo,
de Bram Stoker, um algo piegas monumento ao amor eterno. Hollwood aposta no sangue Por
Marcelo Bernardes
Depois de arrecadar US$ 100 milhões nos Estados Unidos e mais
US$ 200 milhões no mercado internacional em 1994, o filme
Entrevista com o Vampiro, de
Neil Jordan, abriu as portas para várias produções com o notívago
chupador de sangue no papel principal. Os
vampiros da última temporada hollywoodiana jogaram em dois times: dos
pianistas e dos deprimidos. A escalação teve raças, faixas etárias e
posição social distintas. Mesmo assim, nenhum deles conseguiu fazer
tanto dinheiro como a dobradinha formada por Tom Cruise e Brad Pitt. O
grande lançamento do final do ano passado foi a comédia Vampire in
Brooklin, com Eddie Murphy como o sanguessuga do bairro
nova-iorquino. Embora com campanha publicitária maciça e a participação
da musa negra Angela Basset (protagonista de Tina), o filme não
foi bem na bilheteria. Lançado
no natal, Drácula: dead and loveing it (Drácula: morto e
adorando), de Mel Brooks, traz Leslie Nielsen como protagonista. O astro
decano de Corra que a polícia vem aí prepara seu vôo
para seduzir uma beldade inglesa. Quando ele está a poucos metros do
alvo, ela, com frio, resolve fechar a janela. A trombada é certa. A
atual temporada vamp de Hollywood conta com o relativo sucesso de dois
cults alternativos: Nadja e The Addiction. Em Nadja, o
cineasta Michael Almereyda, em produção de David Lynch, mescla
fotografia em preto e branco granulada com a sua câmera exclusiva
Pixelvision, que produz imagens nas ruas do Village, em Nova York,
enquanto seu vampiro vai atacando suas vítimas. Embora seja um drama,
Peter Fonda (o astro de Sem destino, Renascendo das trevas) garante
boas risadas. O
vampiro viciado
Depressiva,
densa e acadêmica é a vampira de Lili Taylor no filme do infante terrível
Abel Ferrara, The Addidion (a viciada). Lili estuda filosofia na
New York University e à noite procura suas vítimas, também no Bairro
do Village, que já virou sinônimo de vizinhança vampírica da cidade.
Seu conflito é que não consegue conciliar seu senso aguçado de
moralidade com o desejo desenfreado pelo sangue humano. O
novo filme de Robert Rodriguez, de A Balada do pistoleiro, traz
dois ídolos da nova geração juntos: o cineasta Quentin Tarantino e o
ator da série Plantão médico, George Clooney. Os dois
encontram um bando de vampiros em pleno saloon do Oeste americano em From
dusk till dawn (do entardecer à madrugada). No trailler do filme,
que faturou US$ 22 milhões de bilheteria até 16 de fevereiro, após três
semanas nos EUA, o letreiro anuncia: “Vampiros sim. Entrevista e
conversa fiada não”. “Sem
cessar ao meu lado
O
demônio arde em vão... Enchendo-o
de um desejo Eterno
e criminoso” Trecho
do livro As Flores do Mal, Charles Baudelaire Entrevista com Christopher Lee function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\\n'; document.write(barra); } } changePage(); Ator
mais identificado a Drácula desde Bela Lugosi, Christopher Lee, 74
anos, deu ao personagem a selvageria e o charme que o distinguiu da
personificação suave de aristocrata de Lugosi, Desde Horror de Drácula,
de 58, fez mais de 130 longas, 10 dos quais como o vampiro de Bram
Stoker. Em 86, no Festival de Terror de Stiges, na Espanha, o cineasta Ivan Cardoso o entrevistou, Desde Nosferato no Brasil (71), comédia em super 8 com o drácula Torquato Neto passando férias no Brasil e vampirizando Scarlet Moon e outras nativas, o tema se tornou obsessão para o diretor de As sete vampiros (86). Lee,
que fala oito línguas (inclusive o português) e usa um anel de Drácula,
acaba de lançar em Londres a videobiografia The many face of
Christopher Lee. Em
96, Ivan vai concluir o documentário À Meia Noite com Glauber,
na Zona Proibida, e está engatilhando, com Roger Corman, o filme A
Filha de Drácula.
IVAN
CARDOSO –
Você sente saudades do conde Drácula? CHRISTOPHER
LEE
– Gostaria muito de voltar ao papel, embora já o tenha recusado várias
vezes. O público me identifica com o personagem e tenho medo de passar
a vida só fazendo esses papéis, como aconteceu ao infeliz Bela Lugosi.
Mas gostaria de voltar a fazer Drácula, com a condição de que a produção
e o argumento me interessem. O papel foi uma das maiores oportunidades
da minha vida, um dos mais célebres e fantásticos personagens...
Nenhum ator poderia pedir mais. IVAN
–
Como você se especializou no gênero do terror? LEE
– Uma
tarde, quando estava no escritório do meu agente em Londres, ele me
disse que iam rodar um filme de Frankenstein na Inglaterra e que a
Hammer tinha comprado os direitos. Eu não sabia nada sobre o gênero.
Eu me interessei, primeiro porque precisava trabalhar. Propuseram-me o
papel do monstro. Por que não? Descobri logo que era um personagem
apaixonante, quase um papel de mímica, e tinha a altura do personagem.
Foi uma experiência nova para mim. Só depois de The curse of
Frankenstein (1957) fui convidado para ser Drácula nas telas. IVAN
–
Como você
compôs Drácula? LEE
– A minha idéia de interpretação do personagem se baseou no romance
que reli inúmeras vezes. A
própria neta de Bram Stoker foi me ver representar e me assegurou que
estava muito bem. Claro que havia diferenças entre o argumento do filme
e o romance, mas tentei sempre pôr em evidência a solidão do mal e
mostrar que, por mais terríveis que fossem as ações do Conde Drácula,
eram impulsionadas por uma força oculta que não podia controlar. Foi
sua grande tristeza que tentei impregnar a minha interpretação. IVAN
–
Drácula
é um personagem muito difícil de se interpretar? LEE
– A sua interpretação compreende um problema de ordem sexual. O
sangue, símbolo da virilidade, e a atração sexual que a ele se liga
sempre estiveram vinculados ao tema do vampirismo. Tentei sugerir isso
sem destruir o mito. Aliás, não devemos esquecer que Drácula era um
gentleman, um nobre e, na sua primeira vida, um grande soldado e
condutor de homens. Claro que era impossível, num só filme, mostrar
tudo isso, mas é sempre possível sugerir, pela interpretação, fatos
do passado, sem os mostrar... IVAN
–
Por que Drácula é o mais popular personagem de terror? LEE
– Ele
é romântico, muito erótico, um grande herói, forte e irresistível
para as mulheres, poderoso com os homens e imortal, Talvez sejam estas
as razões, eu não sei... É um dos livros mais famosos e lidos no
mundo, depois da Bíblia. É o lado negro, dark side, satânico e
desconhecido, por isso mesmo muito interessante. IVAN
–
Você já
sonhou com Drácula? LEE
– Nunca. IVAN
–
Mas acredita no sobrenatural? LEE
– Em
algumas coisas. À noite, em Copacabana, eu via a macumba e, certa vez,
participei de uma cerimônia. A coisa é muito profunda e às vezes até
perigosa. A macumba é metade cristandade e metade velhas superstições.
No mundo inteiro você vai verificar que as pessoas têm crenças fortíssimas.
Acreditam em diabos, deuses e deusas, como na Índia, ou no vodu, como
no Haiti. IVAN
–
Qual dos
filmes de Drácula, que você fez, mais lhe agrada? LEE
– O primeiro. Horror de Drácula, de Terence Fisher. IVAN
–
Na Hammer você fez 10 fitas de Drácula com Fisher, Freddie Francis e
Roy Ward Baker. Mudava sua interpretação a cada filme? LEE – Os três diretores são bastante diferentes. Fisher era montador, Francis era um dos maiores cameraman e Roy, não estou bem certo se era montador ou roteirista. Tudo dependeu do que eles quiseram com o personagem. Cada um o viu de uma maneira diferente. Mas interpretei o papel mantendo as características do livro: heróico, romântico, erótico, inteligente e triste. Aquele que quer viver para sempre, que ninguém consegue controlar.
Publicado originalmente em Livros & Artes Março/abril - 96 (pgs. 22-29)
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